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Qualidade de Vida
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A importância da manutenção da qualidade de vida
26/03/2005 - 14h48m

A expressão Qualidade de Vida (QV) tem estado muito em voga e na moda, mas nem sempre tem sido empregada corretamente. Para mui­tas pessoas, uma boa QV tem sido confundida com uma vida boa do ponto de vista material: casa de campo e de praia, barcos de recreio, festas e férias em lugares maravilhosos, muito lazer e pouco trabalho. Esta não é, no entanto, entendimento dos que estudam o assunto. A conceituação - ou definição - do que seja QV no entanto, não é fácil, nem foi estabelecida. Para que se tenha idéia desta dificuldade, em 75 artigos sobre QV publicados na literatura internacional e revistas por Gill e Cols., apenas em 11 deles (1 5%) se definiu conceitualmente a expressão.
 
A tendência atual é considerar a QV sob um enfoque multidimensional, no qual se incluem as condições de saúde física (inclusive de mobilidade), o repouso, as funções cognitivas, a satisfação sexual, o comunicar-se, o alimentar-se, a reserva energética, a presença/ausência de dor, o comportamento emocional, o lazer, o trabalho, a vida familiar e social (2). Para Depuy, a QV pode ser entendida como o nível alcançado por uma pessoa na consecução do seu plano de vida, de uma forma hierarquizada e organizada. Estabelecer um plano de vida e ter condições de, não necessariamente realizá-lo por completo, mas ao menos lutar por ele é, pois, condição indissociada de uma boa QV e da felicidade, dado que estas duas condições - felicidade e Qualidade de Vida embora não sejam sinônimas, andam de braços dados e são, a rigor, inseparáveis. Claro fica portanto que QV, tal como a felicidade é algo que depende das expectativas e do plano de vida de cada um e guarda, por conseguinte, importante componente individual e subjetivo. Sendo assim, a QV pode ser entendida e esta nos pare­ce ser a conceituação mais apropriada - como um grau de satisfação do indivíduo com a sua vida e o grau de controle que sobre ela exerce.

Cumpre, mesmo sob este rótulo genérico, distinguir-se a QV geral da QV relacionada à  saúde (1),(3),(4). A QV geral refere-se ao indivíduo aparentemente saudável do ponto de vista físico e diz respeito portanto ao seu estado de satisfação com a vida, conforme acima  delineado. Já a QV ligada à saúde basea-se em dados mais objetivos e mensuráveis e aplica-se a pessoas sabidamente doentes do ponto de vista físico. Diz respeito ao grau de limitação e desconforto que a doença e/ou sua terapêutica acaretam ao paciente e à sua vida. No presente artigo se discutirá a QV de um modo geral e sua importância para promover-se à saúde das pesso­as e, em especial a saúde cardiovascular. 

QUALIDADE DE VIDA E PROMOÇÃO DA SAÚDE

 As ações possíveis de serem desenvolvidas no sentido de manter as pessoas saudáveis podem, didaticamente, classificar-se em ações de recuperação, proteção e promoção da saúde. As ações de recuperação da saúde são aquelas que desenvolvemos sobre pessoas já doentes, no sentido de recuperá-las tanto do ponto de vista físico como psicológico e social. As ações de proteção da saúde visam evitar a exposição dos indivíduos a agentes nocivos/agressores clara­mente identificados: o emprego de equipamentos de proteção individual no trabalho (tipo de máscaras, luvas, capacetes, etc.) e a vacinação são claros exemplos que se enquadram neste grupo. já as ações de promoção da saúde são algo bem mais abrangentes e extrapolam à mera preocupação de evitarem-se as doenças, embora­ra estes seja, também, importante componente. Da mesma que a paz não pode ser entendida apenas como ausência de guerra, ter saúde, ou ser saudável, não significa apenas não estar do­ente, mas sim um estado de satisfação e plenitude consigo próprio e com a vida.

Aproxima-se assim, esta concepção do que entendemos como sendo Qualidade de Vida e da própria felicidade.

 Esquematicamente, podemos considerar as ações visando a promoção da saúde e portanto a QV das pessoas sob quatro aspectos, integrantes, em conjunto, do que podemos denominar de “um estilo saudável de viver”: a concepção de alimentação saudável, o engajamento em um programa de atividade física, a não aderência a hábitos nocivos de vida, como tabagismo, alcoolismo e toxicomania e, por fim, mas a nosso ver o mais importante, o aprimoramento nas relações interpessoais e conseqüente adequação do estresse inerente ao viver.

 Alimentação saudável - A concepção de uma alimentação saudável e seu papel no contexto da promoção da saúde das pessoas deve considerar não apenas as restrições que se possam fazer a alguns tipos de alimentos, mas, também, a preservação do prazer de comer. O exercício do prazer, seja ele qual for, é fundamental para a saúde das pessoas. Sendo assim, recomenda-se o que segue:
 
1- As pessoas devem, ao menos anualmente, submeterem-se a exames clínicos e dosagens de colesterol, triglicérides e glicose no sangue. Naqueles nos quais se constatarem (e se confirmarem) situações como: hiper­tensão arterial, sobre-peso ou obesidade, dis-Iipidemias e diabetes, devem ter sua dieta adequada à sua situação. Esta adequação, entretanto, não deve basear-se apenas em proibições, mas, como já salientado, deve ser elaborada com tal inteligência que minimize o desconforto e preserve o prazer. E muito importante que no local de trabalho haja um refeitório e um programa voltado para alimentação saudável. Assim é por ser no trabalho, ou durante o horário de trabalho, que as pessoas fazem a maior parte das suas principais refeições. Além disso é sabida a importância dos suporte social e psicológico para a adesão a pro­grama deste tipo.
 
2 - As pessoas nas quais não se detectaram nenhuma das alterações referidas no item anterior, não necessita de restrições severas. De­vem, no entanto, serem orientadas a, no seu dia-a-dia, evitarem alimentos ricos em colesterol e/ ou gorduras saturadas e hipercalórica. Esta alimentação de “rotina” deve, pois, obedecer aos seguintes princípios básicos: ingesta calórica total adequada ao sexo, altura e tipo de atividade física e distribuída, preferencialmente, em 4 refeições diárias, O total de calorias deve obedecer à seguinte distribuição: proteínas: 10 a 15%; carboidratos: de 50 a 60%; gorduras: de 25 a 30%, das quais a participação de ácidos graxos saturados não deve ultrapassar a 10% (5). Obedecendo a uma dieta deste tipo no seu dia-a-dia, o indivíduo habilita-se a: nas ocasiões especiais como festas, finais de semana, almoços/jantares em restaurantes, etc., exerce o prazer de comer, degustando até mesmo de churrasco e feijoada, sem sentimentos de culpa e/ou “dores” na consciência.
 
Atividade física - A adoção de um programa de atividade física regular é uma das medidas isoladas mais eficazes que pode o indivíduo to­mar em relação à sua QV e saúde. O ser humano não evoluiu como animal sedentário. Muito pelo contrário, a atividade física foi essencial para sobrevivência da espécie. A tendência ao sedentarismo que hoje observamos é algo que data apenas de não mais de 150 anos. Para que se tenha idéia, até meados do século passado, 96% de toda a energia produzida na terra originava-se da força muscular -animal ou humana - cabendo apenas 4% às máquinas (7). Hoje o que se vê e justamente o inverso: o sedentarismo é “a marca registrada” dos indivíduos na faixa etária dos 30 aos 60 anos, de tal forma que, como regra, tais pessoas passam mais da metade do seu tempo (enquanto acordadas) sentadas em algum lugar.
 
O  combate ao sedentarismo pode e deve se dar em duas frentes: a modificação de hábitos corriqueiros de vida e ou engajamento em um programa de atividade física regular. No primeiro item incluem-se atitudes como, sempre que possível, utilizar escadas e não elevadores, percorrer a pé trajetos curtos e médios, levantar-se da mesa de trabalho a cada 50 ou 60 minutos e sempre que necessário (por exemplo: para apanhar algum documento e/ou objeto) levantar-se e fazê-lo pessoalmente, sem recorrer ao contínuo ou à secretária, alongar-se com regularidade, tanto durante o trabalho como por exemplo, em viagens de avião, etc.
 
O  engajamento em um programa de atividade física regular deve evitar os exageros. Paffenbarger (6) sugere que um gasto de 2.000 calorias semanais através de exercícios adequados é suficientes para produzir um impacto significativo sobre a saúde cardiovascular, podendo significar 2 anos a mais na expectativa de vida das pessoas, além dos reflexos benéficos sobre a QV. Chegou-se a calcular que cada degrau de escada subido equivaleria a adicionar-se 0,4% de vida. A atividade física regular à qual se faz referência deve obedecer ao que segue: ser dinâmica, isto é, movimentar-se simultaneamente vá­rios grupos de músculos, ter uma duração míni­ma de 30 minutos de cada sessão; obedecer a uma regularidade com no mínimo 3 sessões semanais e, ainda, ser de uma intensidade tal que produza, ao final da sessão, uma leve sensação de cansaço, porém sem levar a pessoa à exaustão.
 
Um bom guia prático é orientar-se pela capa­cidade de seguir falando enquanto se executa: se for possível, o exercício estará dentro do limite saudável.
 
Hábitos nocivos de vida - Sob esta rúbrica incluem-se o tabagismo, o alcoolismo e a toxicomania. O tabagismo é o mais grave deles, no que tange ao coração. Muito embora se desaconselhe a proibição total (o fracasso da lei seca nos Estados Unidos e o que vimos que tange às drogas, nos mostram não ser este o caminho) deve-se lutar pela proibição total da publicidade e pela restrição cada vez maior ao fumo em locais públicos, de forma a caracterizar o hábito de fumar como um ato marcadamente anti-social (o que aliás já vem ocorrendo). O alcoolismo é, sem dúvida, grave atenta­do à QV das pessoas, embora não tenha o mesmo peso que o fumo como fator de risco para ocorrência de cardiopatia. A grande polêmica aqui, diz respeito ao consumo diário de álcool em pequenas quantidades. Em que se pese trabalhos científicos sérios apontarem para a possibilidade de que o consumo diário de 2 cálices de vinho tinto exerça ação protetora (8), é nosso ponto de vista que o potencial de risco não compensa o eventual (e não claramente com­provado) benefício. Com relação à toxicomania sugere-se que o consumo de cocaína seja fator predisponente para a ocorrência de doenças arterial coronária em jovens, além da possibilidade da ocorrência de endocardite da válvula tricúspide (nos que utilizam drogas por via endovenosa) e das outras graves conseqüências psíquicas, sociais e legais.
 
Aspecto psico-emocional - O Estresse - Embora abordado por último, é, a nosso ver, o mais importante componente da QV. Incluem-se, neste item, as tensões decorrentes de conflitos familiares, ambientais e no ambiente de trabalho, mas inclui-se, sobretudo e principalmente, o estado de insatisfação e tensão crônicas relaciona­das à competição que é o símbolo da nossa época. Como pano de fundo de todos estes fatores e intimamente relacionados com eles, encontra-se a pobreza das relações interpessoais e afetivas e o pouco espaço que se concede nesta nossa sociedade moderna para a vivência e expressão das emoções. O modelo de vida nos grandes centros urbanos, em especial do ocidente, o ritmo vertiginoso da vida, tensa e plena de medos dos mais diversos tipos e origens, cria o que Martins de Oliveira (9) denominou de “cativeiros emocionais”, resultando em situações de elevado potencial nocivo. Nas cidades grandes é maior a solidão e o anonimato e menor o suporte social e afetivo das pessoas, o que contribui de forma importante para a ocorrência de eventos isquêmicos.
 
A competição entre as pessoas dentro e fora do trabalho, mas em especial no campo profissional desempenha, neste quadro, importante papel. Vivemos todos, mas em especial a população masculina, sob a “ditadura da sucessão”: ter “sucesso na vida” passou a ser a pedra de toque da sociedade moderna, residindo o problemas nos critérios que se têm levado em conta para avaliá-lo. Os valores que contam repousam na quantidade de bens que se conseguiu acumular, nos supérfluos que se pode comprar, na aparência que se ostenta, no poder que se detém. Em uma sociedade regida por esses valores, importa pouco o bem que se pratica ou pra­ticou, a bondade de que se for possuidor, a honestidade e a lealdade no trato com as outras pessoas. Em uma sociedade assim, os laços afetivos plenos entre as pessoas são desestimulados, a solidariedade genuína é vista com reservas e alguém que seja capaz de agir desinteressada e honestamente em favor de outra pessoa, às vezes até em detrimento dos seus próprios interesses, é olhado com desconfiança, como um alienado ou mal-intencionado.
 
A importância dos aspectos psico-emocionais nas suas múltiplas facetas é de tal ordem, que não parece haver dúvidas da relação direta que há entre QV e a qualidade das relações que se consegue manter com as outras pessoas. A vida moderna tem se constituído em um jogo de­sarrazoado, no qual a busca desesperada por dinheiro, prestígio e poder transformou todos nós em rivais e potenciais inimigos. O maior absurdo deste jogo, a sua maior insensatez, é que as pessoas competem, desgastam-se e adoecem para conseguir coisas e posições que na maioria das vezes não precisam de fato e nem sequer apreciam, mas apenas para satisfazer às exigências do grupo social no qual estão inseridas. Por este estado de espírito e por esta mentalidade, não basta apenas às pessoas conseguirem de­terminado fim; para que se sintam bem, necessário se faz que o outro não o consiga; não basta ser rico, há que ser mais rico que o vizinho e não basta ser feliz; necessário se faz não deixar que os outros sejam tão felizes quanto nós. Tudo se passa como se a felicidade do outro perturbasse a nossa própria felicidade.
 
Sem descuidar da importância das outras variáveis discutidas acima, como alimentação, atividade física, tabagismo, etc., parece-nos claro que alcançar Qualidade de Vida e felicidade passa necessariamente por uma aproximação desarma­da das outras pessoas. Passa também por uma maior liberdade na expressão das emoções, boas e más, e pela viviência plena e sem medo do amor e do prazer, ambos tomados em sentido muito amplo, como um estado de espírito otimista e aberto para com a vida, o mundo e as outras pessoas em geral. A receita da QV passa pois pela preocupação em alimentar-se de for­ma adequada sem comprometer o prazer de comer; por ser mais ativo fisicamente, sem chegar aos exageros observados nas “academias de aeróbica”; por não fumar, não beber em excessos, não usar drogas. Mas passa, sobretudo e principalmente, por uma mudança interior na nossa maneira de ver e viver a vida e o mundo, que nos habilite a competir menos e amar mais.

 
Fonte:


Dr. Marco Aurélio Dias da Silva
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS

01.      Gill TM, Funstein AR - A Critical a praisal of the quality of quaiity-of-life rneasurernents. JAMA, 1994; 272(8):619-26

02.      Nobre, MRC - Qualidade de Vida (Editorial) Arq.Brras.Cardiol.,1995; 64(4):229-300.

03.      Guyatt GH - Measurernent of health - related quality of life in heart failure. J. Arn Coll Cardiol., 1993; 22/4 (supll A): 185-191’.

04.      Guyatt GH, Feeny DH, Patrick DL - Measuring Health - related Quality of Life.
Na Inter Med, 1993; 

05.      Siqueira Batista R - Nutrição e Saúde. Novas Perspectivas. jornal Brasileiro de Medicina, 1995; 69(2): 136-144




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